quinta-feira, 21 de março de 2013

lixo mental#


2 de janeiro de 2013, 00:00h.


Não me cabia no meu todo que tal fosse possível. Que tais emoções e sentimentos me ocorressem tão intensamente, tendo eu a noção que durariam apenas dois dias. Não me cabia na alma o vazio que isso me traria, quando abalasse de Lisboa. Pensei que o cheiro dele não me perseguisse tanto, que a saudade não me abalasse tanto. Mas durante este tempo, ele conseguiu excitar a minha alma, conseguiu explorar-me como ninguém o fez, conseguiu amar-me, um bocadinho, enquanto eu o amava incondicional e esmagadoramente. A minha alma não consegue assimilar a distância, a saudade, o impacto entre aquele grande mundo de curta duração, com o real, o denso, o que magoa a longo prazo, como consequência. Arrisquei tudo num bilhete de ida e volta, e nunca nada valeu tanto a pena. Nunca um abraço me consolou tanto. Nunca um beijo me satisfez tanto, nunca umas mãos me protegeram tanto como aquelas. Nunca num sussuro ao ouvido se concentrou uma vida, um desejo, uma interrogação, um mistério.

Tudo isto me frustra, porque tudo faz sentido e simultaneamente nada faz. Simultaneamente sei e sinto que estou apaixonada, e depois olho à minha volta e digo que o amor é mais que isto. E bato com a cabeça nas paredes porque a raiva invade-me sem saber porquê, nem para quê, nem por causa de quem em concreto.
Nestes dias restam-me 3 hipóteses: ver filmes a beber e fumar até adormecer, ler Boa filosofia até me 'teletransportar' para fora deste mundo ignorante, ou pôr os fones nos ouvidos e chorar até eu mesma ser a conceção real e frustrada da raiva. Hoje, não sei qual dos três escolher.
Talvez esta sensação de indecisão seja um sinal que este ano deve ser mesmo sinal de que mudei, de que cresci, de que ganhei maturidade. Mais maturidade.
Um sinal que deva esperar que não seja eu a procurar, mas sim que deixe de me importar até me encontrarem.
Ps: Vou dormir com a minha roupa que a tua cama perfumou, e vou deixar que o sono me tire este vazio e as lágrimas limpem o que eu não consegui mandar embora.
Amo-te*

leonorpassinhas#





3 de janeiro, 00:00h

O vazio permanece. Com um mapa nas mãos e as cartas na mesa, nunca me senti tão perdida e sem rumo. Talvez seja mesmo amor, que me consome e ocupa tudo aquilo que não sabia que era. Valeu a pena para mim, mas valeu tanta. E é por saber que a importância que teve para ti em nada se iguala à que teve para mim, que choro, que me frustro, que me perco sem saber onde estou nem para onde vou. É por isso que sei que te devo esquecer e obrigar-me a mim própria a abstrair-me do que és. Porque és mais do que isto, do que o que aqueles dois dias foram. Não és meu. Não és meu agora, apesar de o quase teres sido naqueles dias. A tua ausência magoa-me tanto, que choro e me prendo numa coisa que nunca começou. Mas ainda assim te quero, e fico na ilusão de que não foi só prazer. Mas simultaneamente o meu subsconsciente obriga-me a acordar para o mundo que dizem real, e mandar-te embora da minha vida. Dói tanto. As lágrimas caem e dói tanto. O teu cheiro presente na minha roupa persegue-me a alma, custa-me o que sou e porque o sou. A música repete-se vezes sem conta, e a dor que parece infinita acumula-se brutalmente tanto no meu físico como no meu psicológico. A fome não sabe voltar, a alegria partiu com ela, e a saudade veio brutalmente pela primeira vez na minha vida. O amor instalou-se em tudo o que sou. Dói-me tudo o que sou, dói-me o que não sou, dói-me o que te dei, e o que não te dei. Dói-me o que me deste e o que me tiraste, o que nunca me prometeste. Dói-me a tua sinceridade, dói-me não teres sabido mentir para a alma me doer menos. Não me iludiste com gestos ou palavras, e é isso que me dói. Dói ter abalado de Lisboa sem outra viagem paga, sem outra alegria e ansiedade. Dói não conseguir dormir, porque o amor me consome o sono. O tempo é tão frio mas tão honesto, a raiva não me ilude, mas as lágrimas caem e não alteram nada. São apenas o espelho de como me sinto, de como te queria ao pé de mim, de como constituis um meio de subsistência emocional na minha vida. E de como a dor está a ser uma constante nos meus dias. De como os torna mais longos e mais sinceros. Mas a sinceridade magoa mais que a ilusão. Sempre foi assim. Chego a um ponto em que a dor seca as minhas lágrimas, e o meu corpo acumula tristeza sem saber como a expulsar. A minha mente revê os momentos que os meus olhos fotografaram a cores, com cheiro e emoção. Revê o cheiro da tua cama, a confusão do sofá, e a honestidade do que sentias e do que não sabes sentir. Não te culpo. Não te posso obrigar a ficares presente na minha vida a cada dia que passa porque não somos compatíveis. Não funciona. 

PS: Vou dormir novamente com a minha roupa que a tua cama perfumou, para te sentir ao pé de mim, para relembrar a importância que inevitavelmente tens na minha vida.

Fim: 00:51h


leonorpassinhas#





3 de janeiro, 15:05h.

Hoje perdi-me em lembranças e em genuinidades que obrigaram o tempo a passar mais rápido. É bom distrair-me com o que me faz feliz. Mas dói saber que não há uma continuidade naquilo em que aposto todos os dias. O meu subsconsciente tira-me do abismo a cada segundo, a cada minuto em que penso na utilidade das minhas ações na minha vida. Ele encosta-me à parede e obriga-me a reconhecer que não vale a pena, que não valeu, e que nunca há-de valer este esforço a que me submeto, irracionalmente, todos os dias. Simultaneamente a minha consciência não me pesa, nada do que fiz me faz arrepender, nada a que me dispus me coloca um peso nas costas. O fardo que carrego chama-se angústia, nostalgia, saudade.

Recorro a maneiras de escapar ao mundo real que não são eficazes, mas que aliviam o que me perturba, e nesses momentos consigo ser desprovida de qualquer tipo de sentimento. Torno-me oca. Aí, a consciência adormece. Não gosto de quando ela acorda, não gosto de quando ela me empurra para o computador, para desabafar o que me corrói e não consigo guardar cá dentro. Só quero chegar a casa, esconder-me debaixo dos cobertores durante umas 18 horas, até ao dia seguinte ter que acordar, e voltar a pisar o chão que os outros pisam, a cheirar o que os outros cheiram, mas a sentir aquilo que muitos não sabem sentir. Mas acabo sempre com 15 páginas que me atraem a relê-las as vezes que forem precisas para relembrar aquilo que sei fazer. Desabafar a minha alma e compor o papel, como se fosse uma obra de arte digna de não ser esquecida. Ler e escrever será sempre, dure a Humanidade o tempo que durar, a melhor e mais sentida forma de expressão do nosso abstrato-concreto. É disto que sou feita, é isto que quero para a minha vida, desde sempre.
O vazio ainda cá está, à espera que eu o alimente, à espera de crescer e de me mandar abaixo, como sempre o fez e o sabe fazer. Hoje, apesar de vulnerável, consegui viajar para um mundo onde ninguém me encontra, onde ninguém fala, onde ninguém me magoa, onde ninguém me abate, onde ninguém me faz duvidar daquilo que sou (dentro ou fora daquele mundo.)
Como hoje me entreguei ao passado, tenho uma hora de sono em cima. O melhor que faço é desligar o computador, fumar os cigarros que forem precisos, e ir dormir até que alguém me queira acordar. Se não acordarem, melhor. É menos tristeza que sinto, é menos angústia que me atinge.
Vai levar tempo até me recompor, mas o tempo cura. Cura sempre.
PS: O teu cheiro está a desaparecer do meu saco, e quando desaparecer, mais perdida ficarei. A minha memória não é suficiente para te trazer à minha cama, ao meu peito.

leonorpassinhas#





4 janeiro 2013, 23:38h.

Não há nada nesta vida que nos safe da dor. Nem o tempo a manda embora. Parte de nós, da nossa consciência, da nossa vontade, da nossa força, da nossa capacidade de sofrer de outra dor, para substituir aquela. Nenhuma dor vai embora porque queremos. Vai embora porque lutamos para que vá. E há várias formas de lutar: a minha é de doer mais, até doer tanto que a minha alma já não é suficientemente grande para a suportar, e é automaticamente obrigada a expulsá-la. Resta saber quanto tempo dói até me transcender, resta saber se não sou maior que a dor para ela nunca abalar. Resta saber se não sou pequena o suficiente para ela transbordar. Porque enquanto sou forte, a dor também o é, e enquanto sou fraca, a dor é ainda mais forte. Desproporcionalidades que me dececionam até doer mais do alguma vez pode doer. E é o desespero de querer, que me arrasta para o vazio no qual me encontro. É o desespero que faz com que nos exponhamos a uma dor que veio, porque quisemos. Porque as ações são mais importantes que as consequências. As ações disfrutam-se. As consequências atacam-nos.

E não importam meios, importa estar ali, com aquela pessoa, e fazerem o que o seu corpo ou mente lhes mandar. Não há limites. Não há regras, não há rotinas. O único obstáculo é a inexistência da noção do tempo. A inexistência da nossa utilidade ali, o que importa é por que fomos, para que fomos, para estarmos com quem, a fazer o quê. E dói-nos o peito, da dor que se magoa a si mesma. Da dor que luta contra si mesma para nos proteger. Luta que resulta em mais dor, mais desespero, mais nadas que nos deixam perdidos, ocos, vazios. Doentes.
'Afinal, o que ando aqui a fazer?' - é a pergunta frustrante que nos fazemos a nós mesmos. Não há respostas no momento que nos consolem, que nos ponham um sorriso na cara, porque a vida não é só dor, mas também é. Se repararmos bem, a imparcialidade pode ser uma cura para isto. Mas, infelizmente, não o sou e não o serei, porque isso obrigar-me-ia a esvaziar-me daquilo que sou, daquilo em que acredito e daquilo que promovo para a minha vida. A vida é tão irónica.
Uma vida a lutar por outra vida, e acaba-se por se estar sempre a lutar para alcançar o que não temos, mas que precisamos. 'Lutar para quê?'. Lutar porque somos humanos, porque somos uma espécie meticulosamente perfeita mas assustadormente imperfeita, contradição que muitos não entenderão. Azar, a perspetiva é minha, o desabafo é meu. Cada um entende e interpreta como quiser.

leonorpassinhas#






8 de janeiro, 18:56h.

Há dias em que não precisamos de muito. Não fazemos exigências, não temos alternativas de escapar ao que quer que seja, porque não existem. Não temos de falar muito, não temos que pensar em muito. Só temos que nos deixar levar pela neutralidade do momento que rasgou o nosso dia, como que uma anestesia de diferenças, de mistérios. Bastam meia dúzia de cigarros e meia dúzia de músicas. Não sabemos para que bastam, o que valem, porque valem, só sabemos que bastam. Bastam ali, sem elações ou analogias complexas.

Os olhos semi cerram-se num mundo banal, num mundo parado, num mundo anti-consciente. A expressão ausenta-se e isso traz-nos paz. Dá-nos segurança. Não nos deixa mais felizes, mas deixa-nos mais tranquilos. Ali a utopia não faz sentido, as tuas crenças não fazem sentido, porque o mundo é maior que tu, maior que os teus desafios, maior que a tua bondade. Maior que ele mesmo.
Não tens medo. E sentes-te bem com isso. Não queres viver à pressa e consegues tirar o maior partido disso. Queres viver intensamente e isso rouba-te a noção do tempo, a noção daquilo a que estás disposta, a noção de que não és muito diferente neste conjunto de rótulos, de consumos e de vantagens.
Por fim apercebes-te que a sociedade é que te rouba o que podia ter sido o rendimento de hoje e o pão de amanhã na tua mesa, o valor de ontem e a noção de que hoje já não é ontem. Que o ontem não volta mais só para te pedir desculpa, ou para te dar oportunidades que ignoraste por não satisfazerem os teus caprichos, a tua ambição ou a tua ganância por quereres triunfar num mundo quando não consegues fazeres de ti o teu próprio trunfo.

leonorpassinhas#








é a vida.







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